A corrida armamentista do século XXI: o caso da Coreia do Norte

Entenda o motivo com que faz a Coreia do Norte desenvolver testes com mísseis. E ainda, entenda quais são as relações e reações do demais países com a Coreia do Norte.  

Uma nova corrida armamentista?

A Guerra Fria (1945-1991) foi um período marcado por uma corrida armamentista, espacial e econômica entre o bloco socialista, (representado pela URSS) e capitalista (representado pelo EUA). Embora a Guerra Fria tenha realmente acabado com a desintegração da URSS em 1991, temos visto cotidianamente no noticiário testes de armas nucleares pela Coreia do Norte, parecendo uma corrida armamentista com a mesma preocupação da Guerra Fria. Só que ao invés da URSS ou do EUA, o país responsável pela corrida armamentista é agora a Coreia do Norte.

Desde 2011, quando assumi o governo norte-coreano o jovem Kim Jong-un que mantém a ditadura e dinastia em seu país, aumenta-se o número de testes armamentista. O objetivo do governo norte-coreano é desenvolver um míssil balístico intercontinental que possa atingir qualquer país, como o EUA, e que ainda o míssil possa carregar uma bomba nuclear.

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Lançamento de Hwasong-14 no dia 4 de julho de 2017.

No dia 04 de julho de 2017 foi noticiado o sucesso do teste míssil balístico intercontinental Hwasong-14 que gerou uma preocupação mundial. A preocupação é que o míssil alcançaria o Alasca e que o governo norte-coreano está mais capaz de desenvolver um outro míssil com maior alcance. O próprio governo da Coreia do Norte se autodeclarou agora como uma potência nuclear e anunciou que o míssil testado “pode carregar uma ogiva nuclear e atacar qualquer ponto escolhido” (fonte). Os governos norte-americano e russo confirmaram o receio mundial, reconhecendo o alcance do míssil norte-coreano. E ainda, governo sul-coreano alegou que o alcance do míssil poderia ser maior, atingindo o Havaí.

alcance de Hwasong-14_coreia do norte_ 04 de julho

Independente do real alcance do míssil, surge questionamentos sobre o motivo que a Coreia do Norte vem desenvolvendo essa corrida armamentista e a alternativa para resolver o problema de forma pacífica.

Para quem desconhece a origem do conflito, envolvendo a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, é desde a época da Guerra Fria na Guerra da Coreia (1950-1953). O conflito envolveu além das duas coreias, o EUA e a China. Para relembrar como ocorreu a Guerra da Coreia e a dinastia da família de Kim Jong-un leia aqui.

Por que a corrida armamentista da Coreia do Norte?

Segundo John Swenson-Wright, especialista em Ásia do Chatham House, três fatores explicam a corrida armamentista norte-coreana (Fonte). Leia a seguir um resumo sobre esses fatores:

Primeiro fator: dissuasão

Desde a Guerra da Coreia, a Coreia do Norte realiza a incansável busca no desenvolvimento de armas nucleares para se defender de seus rivais (Coreia do Sul, Estados Unidos e Japão). Esta beligerância (estado em alerta, em guerra) é por que temem uma invasão ou conflito com seus rivais. Por exemplo, Swenson-Wright compara que na Líbia em 2013, o líder Muamar Kadafi concordou em abandonar seu projeto nuclear e logo depois foi derrubado por um grupo opositor.

Segundo fator: a legitimidade interna

O desenvolvimento de armas nucleares na Coreia do Norte acontece desde o final da Guerra da Coreia, em 1953. Contudo é no governo de Kim Jong-Un que a corrida armamentista atinge um nível absurdo e preocupante. Kim Jong-Un assume a liderança da Coreia do Norte em 2011, quando falece seu pai Kim Jon-il.

Um ponto que chama a atenção é que há uma divergência sobre a idade real de Kim Jong-Un. Presume-se que em 2011 ele tinha apenas 27 anos, o que naturalmente sua pouca idade para um líder supremo traga desconfiança de seus méritos e de suas ações. Por isso, a corrida armamentista com Kim Jong-Un explique como forma de compensar sua pouca idade para demostrar sua legitimidade interna. Por exemplo, um ano após assumir o poder, Kim Jong-Un realiza com sucesso o teste com foguete espacial de longo alcance, dois anos depois, realiza um teste nuclear.

Dinastia da Coreia do Norte (1)

Terceiro fator: o avanço técnico

Coreia do Norte desenvolve seu programa nuclear com base em urânio, o que permitiu, segundo o especialista John Swenson-Wright, a produção de duas bombas atômicas por ano. O mesmo especialista, assim como Donald Trump (em janeiro de 2017), e entre outros políticos e especialistas, duvidaram do potencial norte-coreano sobre o desenvolvimento de um míssil balístico intercontinental.  O teste norte-coreano de 4 de julho, com o míssil balístico intercontinental Hwasong-14, provou o contrário.

O sucesso do teste desse míssil  provou que a Coreia do Norte tem um avanço técnico muito forte e que pode conseguir o que tanto almeja (míssil capaz de atingir os seus principais rivais). Segundo o jornal norte-americano CNN, o EUA acredita que a Coreia do Norte conseguirá lançar um míssil balístico intercontinental (ICBM) com capacidade nuclear no início de 2018 (fonte).

E qual é a reação dos países sobre a Coreia do Norte e os testes nucleares?

A ONU, como organismo responsável por garantir a paz mundial, tem como função de tentar barrar a Coreia do Norte no campo diplomático e econômico. A cada teste desenvolvido pela Coreia do Norte, a ONU promove novas sanções econômicas que, infelizmente, jamais surtiu efeito algum.

Embora a Coreia do Norte tenha países aliados, devido ao socialismo e sua histórica relação com o bloco soviético na Guerra Fria, como é o caso da Rússia e da China, nenhum país (tanto socialista como capitalista) é favorável a uma guerra nuclear. Diante disso, os países aliados têm função de convencer a Coreia do Norte para que pare com o desenvolvimento de armas nucleares.

Rússia: Substituto da URSS na Guerra Fria, a Rússia é aliada da Coreia do Norte. Porém, é menos influente do que a China, seu principal parceiro. Atualmente, o papel da Rússia é convencer diplomaticamente a Coreia do Norte junto com a China.

China: Principal parceiro da Coreia do Norte e sua relação vem desde a Guerra da Coreia, quando lutou junto com a Coreia do Norte contra os sul-coreanos e norte-americanos. Sua relação amigável faz com que a China torne-se a principal salvadora para convencer diplomaticamente a Coreia do Norte.

EUA: Atualmente é o principal alvo da Coreia do Norte. Sua relação não-amigável vem desde da Guerra da Coreia, quando EUA apoiava a Coreia do Sul. Porém, com ascensão de Donald Trump em janeiro de 2017, que é um presidente mais agressivo e provocador, a relação entre as duas potências vem sendo mais preocupante com as provocações. O presidente norte-americano anunciou dia 6 de julho que atitude da Coreia do Norte trará consequências. O governo norte-americano disponibilizou 28 mil soldados, navios de guerra e 2 aviões bombardeiros na Coreia do Sul postos a uma possível guerra.

Japão: Historicamente, o Japão tem uma rivalidade com a Coreia do Norte. A região da península coreana pertenceu aos japoneses até a derrota do país na Segunda Guerra Mundial e ser dividida entre EUA e URSS. Atualmente, o Japão é visto como inimigo e está em estado de alerta com a Coreia do Norte.

Coreia do Sul: Principal rival da Coreia do Norte. O país sul-coreano ainda sonha com uma possível reunificação das duas coreias. Os testes nucleares norte-coreano preocupam principalmente a Coreia do Sul. A Coreia do Sul junto com o EUA vem pressionando os países aliados norte-coreano para evitarem novos testes nucleares.

É possível uma guerra nuclear ?

Infelizmente, o que tudo indica é que o mundo terá uma guerra nuclear se a Coreia do Norte continuar desenvolvendo seu míssil intercontinental. Alguns especialistas pensam que é improvável a guerra por conta do risco, mas infelizmente, Kim Jong-Un demonstra-se imprevisível e insano. Para evitar o pior, devemos torcer para que os países aliados da Coreia do Norte, bem como a ONU, consigam convencer a Coreia do Norte a evitar novos testes e de seu desarmamento nuclear.

Desde o teste do míssil do dia 4 de julho a situação esfriou. Porém no final desse mês de julho tivemos novas notícias que reacendem a preocupação mundial. Por exemplo, no dia 26 de julho, que comemorava o 64º aniversário do fim da Guerra da Coreia chamada de “Dia da Vitória”, a Coreia do Norte ameaçou publicamente o EUA com um ataque nuclear preventivo. O ministro da Defesa norte-coreano, Park Yong-sik alertou “Se nossos inimigos interpretam mal nossa situação estratégica e insistem que suas opções passam por realizar um ataque preventivo nuclear contra nós, lançaremos um ataque nuclear preventivo no coração da América como um implacável castigo e sem advertências” (fonte).

Dois dias depois (28/07), foi identificado pelo EUA e pela Coreia do Sul um novo lançamento de míssil balístico pela Coreia do Norte, que após 45 minutos caiu nas águas japonesas próximas a uma zona econômica exclusiva do país (ZEE) (fonte).  O governo da Coreia do Norte disse no dia 29/07 que o teste executado no dia anterior “mostrou que o país é capaz de atingir o território inteiro dos Estados Unidos” (fonte) .

Aparentemente, surgirão novas tensões na península coreana que abordaremos aqui.

Atualização (30/07/2017)

No dia 29 de julho, Donald Trump acusou a China de não fazer nada a respeito da Coreia do Norte e escreveu o seguinte no Twitter: “Estou muito decepcionado com a China. Nossos estúpidos líderes do passado lhes permitiram gerar centenas de bilhões de dólares todo o ano em comércio, mas não fazem NADA por nós em relação à Coreia do Norte, apenas falar […] Não permitiremos que isso continue. A China poderia resolver isso facilmente!”. O presidente norte-coreano prometeu tomar “todas as medidas necessárias para garantir a segurança dos Estados Unidos” e proteger seus aliados na região (fonte).

Entre as medidas tomadas foi um exercício militar entre o EUA e a Coreia do Sul. E ainda, o EUA enviou ‘ativos estratégicos’ na Coreia do Sul como aviões bombadeiros B-1B (fonte)

A China ainda busca resolver a tensão na península com o diálogo e repudia qualquer intervenção militar e cobra que a Coreia do Norte obedeça a resolução da ONU. Após o lançamento do míssil no dia 28/07,  o ministério das Relações Exteriores chinês disse em nota: “A China se opõe às violações pela Coreia do Norte das resoluções da ONU […] Ao mesmo tempo, espera que todas as partes envolvidas deem mostras de prudência e evitem aprofundar as tensões na península”(fonte).

Leia mais

Como seria uma guerra com a Coreia do Norte?

EUA volta a responder o teste de míssil norte-coreano

Cronologia da tensão na península coreana no ano de 2017. 

3 comentários em “A corrida armamentista do século XXI: o caso da Coreia do Norte”

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