Dica de filme: As sufragistas

Indicação de filme para vestibulandos entenderem o movimento sufragista e das dificuldades que elas passavam.

Sobre o filme

O filme “As sufragistas” foi lançado em 2015 e conta com a participação de Carey Mulligan (Maud Watts, a protagonista) e outros nomes como Anne-Marie Duff (como Violet Miller) e até a curta participação de Meryl Streep (Emmeline Pankhurst), vencedora três vezes do Oscar.

O filme retrata a história da luta das mulheres pelo sufrágio feminino na cidade de Londres (1912). O enredo gira em torno da Maud Watt que trabalha na lavanderia Glasshouse em Bethnal Green.

Maud Watt é mostrada como estar acostumada com o seu dia-a-dia, aceitando de forma natural sua condição de exploração na lavanderia, da sua relação com o seu patrão e de não poder votar.

Contudo, no desenrolar do filme, Maud Watt conhece o movimento sufragista e aos poucos vai participando de alguns atos e sendo presa. Mesmo com essa participação, Maud não se considerava como uma sufragista (ou seja, não se via como integrante do movimento).

Somente quando Maud Watt perde sua família, ela começa a perceber a necessidade de empoderamento e começa a se identificar com o movimento.

Atualmente, este filme está disponível na Netflix (atualizado).

Sobre a crítica que o filme mostra

O filme tem diversas críticas, resenhas e indicações disponíveis na internet (indicaremos algumas delas aqui). Mesmo assim, decido escrever essa indicação por três motivos.

Primeiro motivo

O filme resgata a luta pelo sufrágio (defesa do voto), que nesse momento conturbado de crise política no Brasil e de críticas “que o povo não sabe votar” ou que “mulher não sabe presidir”, nada é mais importante do que garantir o voto universal (para pobres, mulheres e etc…) e quebrar certos paradigmas.

Segundo motivo

O filme destaca a luta e a dificuldade das mulheres para conseguir o direito ao voto, e ainda, relata a exploração cotidiana delas no trabalho (o período do filme é de Londres no ano 1912) e na família (além de trabalhadora é mãe).

Maud Watts ao testemunhar sua condição de trabalho para o juiz Lloyd George que analisava os testemunhos para verificar a necessidade de uma emenda para mulher votar, disse o seguinte no filme:

“O trabalho é curto para as mulheres. […] Sentimos dores, tossimos, temos os dedos arrebentados. Úlceras nas pernas, queimaduras, dores de cabeça com o gás. Ano passado, uma garota foi intoxicada. Não trabalhou mais por causa dos pulmões. […] Recebemos 13 schillings por semana, Sr. Um homem recebe 19 e nós trabalhamos 1/3 a mais. Eles fazem as entregas, então respiram ar puro”. (Trecho de Maud Watts no filme ‘As sufragistas’).

Veja o mesmo trecho na seguinte imagem:

Mesmo com esse testemunho de Maud e de outras trabalhadoras sobre abusos de exploração, o juiz nega o pedido de ceder o voto para a mulher.

A justificativa para a não aprovação do voto da mulher naquela época é explicada no filme no seguinte trecho:

“Uma mulher não o tem o temperamento calmo, nem a mente equilibrada para julgarem questões políticas. Se permitimos o voto das mulheres será a perda da estrutura social”. (Trecho do filme “As sufragistas” [2015]).

Se observarmos nos tempo de hoje, a justificativa ainda é usada.  Na parte do crédito do filme é informado alguns dados interessante sobre a lutas das mulheres britânicas:

“Uma luta que levou ao aprisionamento de mais de mil mulheres britânicas. Em 1918, o voto foi dado a algumas mulheres acima de 30 anos. Em 1925, a lei reconheceu o direito da mãe sobre o filho. Em 1928, as mulheres obtiveram direitos iguais no voto”. (trecho do crédito do filme “As Sufragistas” [2015]).

No trecho acima é perceptível a demora em conseguir êxito no direito ao voto feminino na Inglaterra. No final do crédito é ainda informado o ano que cada país obteve o voto para mulher:

Terceiro motivo

O filme mostra como é importante persistir (e lutar) para que por aquilo que desejamos. E ainda, o filme fortalece a ideia de coletividade e persistência (e até da desobediência civil).

O movimento sufragista na Inglaterra surge em 1891 com a National Union of Women’s Suffrage Societies – NUWSS (União Nacional das Sociedades de Mulheres Sufragistas), mas a movimentação das mulheres pelo voto é desde 1792 (fonte). O preconceito contra a mulher era muito forte na sociedade (e até hoje está presente).

sufragio.png

De acordo com Junes Purvis[i], da Universidade de Portsmouth, as mulheres eram proibidas de protestar, de ir nas reuniões do Partido Liberal, de organizarem suas próprias reuniões (pois, ninguém permitia que mulheres alugassem um salão) e, também, não tinham acesso aos jornais (que era a única fonte de difusão de notícias).

Cansadas de serem ignoradas e de que suas vozes fossem abafadas pelo preconceito da sociedade, o movimento sufragista buscou outra forma de entoar sua voz: pela desobediência civil. Desde ações como quebrar vidraças de lojas, a explosão de caixas de correio e atentado, o movimento sufragista parte desesperadamente para ações com objetivo de que fossem realmente ouvidas. Infelizmente, esta prática rebelde é ainda muito usada pelas classes “não ouvidas” por faltar uma verdadeira representatividade no mundo (vide as manifestações populares como a de Junho no Passe-Livre e entre outras).

No filme é atribuída à Emmeline Pankhurst (interpretada pela Meryl Streep) a frase: “São ações e não palavras que conseguirão o nosso voto” e “Ações e sacrifícios deverão ser a ordem do dia”. Emmeline Pankhurst é uma personagem que realmente existiu e foi quem iniciou o movimento sufragista na Inglaterra.

[i] Retirado do documentário “Sufragistas: passado e futuro”, disponível no DVD “As Sufragistas”.

O que o filme não mostra

Infelizmente o filme deixa de lado de mostrar que além das mulheres brancas outras mulheres imigrantes, de diferentes etnias participavam do movimento sufragista. Aliás, é muito criticado a ausência da Sophia Duleep Singh, princesa indiana que participou bravamente com o movimento sufragista, sendo amiga inclusive de Emmeline Pankhurst.

No artigo “O movimento sufragista – ou parte dele” é explicado sobre a Sophia Duleep Singh e o que o filme deixou de mostrar:

Mas havia minorias étnicas no movimento, como as indianas. A princesa Sophia Duleep Singh, afilhada da rainha Vitória, foi uma sufragista proeminente, membro da União Política e Social das Mulheres e amiga de Pankhurst. “A vida dela deveria ter sido repleta de festas e privilégio. Ela se sacrificou para lutar pelo voto das britânicas e pela emancipação das indianas”, afirma Anita Anand, autora do livro Sophia: princess, suffragette, revolutionary. A ausência incomodou de maneira aguda uma parte do público que os criadores do filme esperavam atrair. “Esse filme não fará diferença para mim como mulher, feminista e negra”, afirma Luma de Lima, militante feminista brasileira e educadora. (FINCO, 2015, fonte) .

Mesmo com essa omissão de outras mulheres na luta pelo direito ao voto da mulher, o filme é uma boa indicação para entender a realidade machista e explorada da Inglaterra na década de 20. E ainda como foi difícil conseguir assegurar o voto para a mulher.

Como o filme ajuda no vestibular e no Enem?

O ENEM, e diversos vestibulares, exigem do candidato uma posição crítica e cidadã sobre a desigualdade social entre homens e mulheres e outros pontos sobre direitos humanos.

Na época retratada do filme, as mulheres não tinham nenhum direito, nem para votar (pois não tem mente equilibrada, segundo o filme), nem sobre o filho e ainda ganhavam menos do que os homens (leia mais).

Lembrando que em 2015 o tema da redação do Enem foi sobre a “violência contra a mulher no Brasil” e além de uma questão sobre a mulher relacionada com a citação de Simone de Beauvoir (fonte).

Diante dos pontos destacados no filme, é super recomendado o filme por retratar a sociedade inglesa em 1912, destacando a desigualdade entre homens e mulheres.

Saiba mais

Tudor Brasil. Resenha do filme: As Sufragistas – Por que Precisamos do Feminismo? Tudor Brasil.  29 de janeiro de 2016. Disponível em: https://tudorbrasil.com/2016/01/29/resenha-do-filme-as-sufragistas-por-que-precisamos-do-feminismo/

WARKEN, Júlia. Quem foras as sufragistas da vida real? M de mulher. 22 de dezembro de 2015.

SILVA, Bruno. As sufragistas. Omelete. Disponível em: https://omelete.uol.com.br/filmes/criticas/as-sufragistas/?key=103743

FINCO, Nina. O movimento sufragista – ou parte dele.  Revista Época. 23 de dezembro de 2015. Disponível em: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/12/o-movimento-sufragista-ou-parte-dele.html

Sufragistas: passado e futuro. Documentário extra no filme “As Sufragistas”. 2015. 7 minutos.

 

2 comentários em “Dica de filme: As sufragistas”

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